Marcas do pontificado de João Paulo II

Desde que a morte do Papa João Paulo II pareceu iminente e, mais ainda, desde que de fato ele faleceu, começou uma maratona intensa de informações sobre o Papa e de avaliações sobre seu pontificado. Todo esse interesse por “João de Deus”, mesmo da parte de quem freqüentemente o criticou, revela a importância desse Papa para a sociedade e para a Igreja.
É
tarefa bem difícil resumir em poucas linhas o significado do Pontífice
falecido para a própria Igreja. Sua personalidade dinâmica e determinada,
durante um pontificado longo como poucos na história, teve muitas
possibilidades de deixar marcas profundas na vida da Igreja. O futuro,
certamente, o recordará como o Papa missionário, que realizou durante todo o
seu ministério
na Sé de São Pedro as palavras programáticas que pronunciou, depois de sua
eleição: “abri as portas a Cristo Redentor. Não tenhais medo!”.
Suas
muitas viagens a todos os quadrantes da Terra, o contato com todos os povos, a
tenaz busca do diálogo com as Igrejas cristãs, as religiões não-cristãs, as
culturas dos povos e com o mundo da filosofia e da ciência, tudo isso foi um
constante bater às portas, para entrar em diálogo missionário e para anunciar
o Evangelho a todos.
Foi
um Papa evangelizador, que fez um esforço enorme para não deixar que a Igreja
se fechasse sobre si mesma, mas levasse novamente o barco para o alto-mar, para
lançar as redes em águas mais profundas. Ainda na passagem para o terceiro milênio
cristão ele recordou à Igreja que não era tempo para cansaços ou desânimos,
nem para se dar por satisfeita com aquilo que já conseguira durante dois mil
anos: a tarefa evangelizadora apenas está no seu início!
A
Igreja certamente o recordará como o Papa do Catecismo, da Doutrina Social da
Igreja, das muitas encíclicas e escritos, dos jovens, das
vocações, o Papa mariano, dos muitos bem-aventurados e santos...
Mas
as demonstrações de apreço desses dias de luto estão evidenciando – como já
era bem conhecido - o seu significado para toda a comunidade humana. De fato, as
grandes questões, que foram objeto de tantas intervenções de João Paulo II,
nem são propriamente religiosas: foram elas a firme
defesa da pessoa humana, de sua dignidade e de seus direitos, a inviolabilidade
da vida humana desde o primeiro instante de sua existência até seu fim
natural; a afirmação, sem rodeios, da importância do casamento e da família;
os esforços pela paz mediante a superação dos conflitos e das guerras; a
preocupação pelos pobres e excluídos do bem comum; a defesa da justiça em
todos os níveis; a chamada profética para a reforma dos organismos
internacionais, para serem mais adequados às circunstâncias atuais; a busca
incansável da aproximação dos povos e das culturas, o diálogo entre as
religiões.
Com
certeza, o Papa falecido ajudou a humanidade a tomar consciência que, no fundo,
somos todos parte de uma única e grande família humana; apesar das diferenças
raciais, culturais, políticas, econômicas, étnicas, ideológicas e
religiosas, há um laço comum que une todos numa comunidade humana que tem raízes,
sonhos, necessidades e buscas comuns, e uma dignidade igual presente em cada ser
humano. Não apenas as novas tecnologias e a globalização comercial e econômica
aproximam as pessoas; a globalização verdadeira acontece quando as pessoas têm
a certeza da existência de um pai comum, de uma referência válida para todos,
como se fosse a salvaguarda da identidade necessária
e a reserva dos valores bons, indispensáveis à existência.
João
Paulo II lutou muito pela globalização da solidariedade. Não tenho dúvidas
que seu pontificado ajudou a aproximar mais a família humana; e somente a
partir deste pressuposto será possível construir sobre bases sólidas a justiça
e a equidade entre as pessoas e os povos; só quando houver consciência clara
que a solidariedade e a fraternidade são dimensões inerentes à condição
humana, das quais decorrem imperativos éticos válidos para todos, é que
teremos a possibilidade de resolver os graves problemas que afligem o mundo.
As
manifestações de apreço pelo Papa João Paulo II, durante esses dias de luto,
parecem ser o reconhecimento a alguém que despertou uma saudade boa escondida
no coração dos povos, de suas culturas, raças e religiões: no fundo, somos todos
irmãos e temos muito em comum. João Paulo II foi um grande pai para toda a família
humana.
Dom Odilo
Pedro Scherer
Bispo auxiliar de São Paulo
Secretário-Geral da Conferência Episcopal brasileira
